A 61ª temporada do São Paulo Fashion Week (SPFW) chegou ao fim no último domingo (18) encerrando as celebrações de três décadas da maior semana de moda da América Latina. Ao longo de seis dias, a edição reuniu mais de 20 desfiles divididos entre o Pavilhão das Culturas Brasileiras (Pacubra), no Parque Ibirapuera, e outras locações externas espalhadas pela capital paulista.
Além de reforçar o momento de maturação e transição, o evento também voltou o olhar para a autoridade regional e sustentabilidade tanto quanto para linguagens urbanas e cultura pop – em ascensão principalmente entre a geração Z.
Para os próximos anos, uma das principais novidades se dá pela mudança no nome do evento. A semana será batizada de Mantecorp SPFW. O acordo de naming rights tem vigência até 2034, e estabelece uma parceria de longo prazo entre a merca de dermoscométicos e a principal semana de moda do país.
Confira abaixo os principais destaques do SPFW N61:
Abrindo a temporada em apresentação externa, Alexandre Herchcovitch antecipou o clima boho que deu o tom ao desfile. Conhecido por seu DNA ousado, o estilista combinou essa identidade com elementos mais românticos e toques de delicadeza, a partir de rendas e estampas em uma moda refinada para diferentes estações do ano.

Enquanto isso, sob o comando de Vivian Rivaben e Silvio De Marchi, a Forca transformou a Praça Chaales Miller, parte da estrutura da Arena Pacaembu, em um drift de quatro carros que, com suas manobras, levaram o público ao delírio.
Na passarela, a estética punk ganhou destaque a partir da exposição dos corpos. Preto, marrom, cinza, vermelho e azul apareceram entre os looks desfilados, sempre com silhuetas ousadas e em couro.
Sem seguir a classificação tradicional de verão ou inverno, a grife partiu da ideia de criar peças que pudessem atravessar diferentes climas, regiões e momentos.

A abertura do segundo dia ficou por conta de Marina Bitu, que teve como tema a exploração do fundo do mar ao apresentar a coleção “Abissa”, que faz um convite ao público para olhar a revelar histórias e camadas de memória que habitam o oceano, onde a força do feminino encontra seu próprio território.
Na passarela, a criadora e sua equipe combinaram tecidos de tons fortes de azul, preto e bege com texturização e peças alongadas. Trazendo a fluidez das ondas, grande parte dos looks era completada com saias e calças amplas.

Fábio Souza, à frente de À La Garçone, criou um cenário pós-apocalíptico para apresentar coleções repletas de trompe l’oeil — estampas que simulam camisas sobrepostas a vestidos e moletons — combinando organza, couro e pinturas feitas à mão.

O projeto especial do Mercado Livre, trouxe um desfile-conceito com curadoria assinada pelo renomado stylist Daniel Ueda.
Sob a proposta de celebrar a pluralidade e a democratização da moda, a apresentação combinou peças disponíveis no próprio marketplace, reafirmando a força das plataformas digitais na cadeia de consumo e estilo do brasileiro.

Sob o título “Fashion Tribute”, o estilista Tom Martins prestou uma reverência direta a cinco gigantes que moldaram sua formação na indústria: Marc Jacobs, Martin Margiela, Vivienne Westwood, Alexander McQueen e John Galliano.
A coleção apostou no maximalismo, com um trabalho complexo de patchwork utilizando sobras de lavanderia, peças de desconstrução autoral e até uso de máscaras.

Encerrando o segundo dia, a Artemisi, de Mayari Jubini, uniu alquimia, misticismo, impressão 3D e engenharia manual com a coleção “The Holy Matter”. A marca transformou as peças em verdadeiras esculturas vestíveis, reafirmando sua vocação futurista.

Na quarta-feira (15), foi a vez da marca cearense Catarina Mina levar uma poética reflexão sobre o sertão e a chegada da chuva na caatinga. Utilizando bordados densos de canutilhos, rendas e técnicas artesanais manuais, as peças traduziram o gotejar da água em transparências e texturas únicas.
Ainda no desfile, a grife se uniu à Avatim para a criação de um vestido exclusivo que integrou a coleção “Bonito Pra Chover”. A parceria também contou com uma ambientação olfativa da apresentação com a linha Laguna.

Em colaboração especial com o estilista mineiro Ronaldo Fraga, o projeto Sou de Algodão, apresentou o desfile “Cartas de Algodão – Poesias para o Futuro” unindo moda consciente e literatura. A coleção trouxe versos e ilustrações bordados manualmente sobre tecidos 100% algodão.

Em seu desfile, Dario Mittmann, surpreendeu o público ao colocar na passarela uma coleção disruptiva, em homenagem aos 90 anos de Mauricio de Sousa, criador de “Turma da Mônica”. Os personagens mais clássicos do artista ganharam releituras com pega punk, clubber e ultrapop, unindo nostalgia e streetwear conceitual.
“Eu tenho uma memória afetiva muito grande com eles, assim como muitos brasileiros. Eu trouxe a Turma da Mônica de um jeito que o público nunca viu antes. Ainda que os personagens sejam um clássico da cultura brasileira, eu trouxe uma versão deles, por meio da minha visão, para uma geração atual, com a internet”, explicou o estilista à CNN Brasil.

Encerrando o dia, João Pimenta apresentou uma reflexão sobre a fluidez de gênero na alfaiataria, combinando tecidos xadrez, transparências, recortes ousados e música ao vivo tocada ao piano.

Quem abriu a sexta-feira (17), foi a estilista Lilly Sarti. A grife uniu dinamismo e romantismo ao equilibrar forças opostas (com inspirações no horóscopo chinês e na dualidade do yin e yang).
A coleção trouxe alfaiataria estruturada em couro de ovelha macio, georgette, cetim e estampas xadrez/listradas em sintonia com a sonoridade ao vivo do pianista Pablo Rossi.

Já Mônica Sampaio, à frente da Santa Resistência, apresentou “Otelo Brasileiro: Uma Paixão em Verde e Rosa”, apresentando uma combinação de vários tons de verde e rosa, as cores principais da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, homenageada na apresentação.
Com cortes retos em grande parte dos looks, a designer combinou penas, sedas e diversas estampas florais em vestidos, conjuntos de alfaiataria e saias volumosas.

Reafirmando o destaque do beachwear nacional, Amir Slama revisitou o próprio acervo ao reinterpretar uma coleção histórica marcante da época da Rosa Chá.
O desfile trouxe uma fusão poética inspirada no encontro de Carmen Miranda com Iemanjá e as divindades das águas, traduzida em biquínis e maiôs de modelagens nostálgicas dos anos 2000, ricos em drapeados, estamparia tropical vibrante e um projeto autoral em parceria com a Kirimurê Brasil.

Após estrear no Rio Fashion Week, a grife mineira Hisha, de Giovanna Resende, desembarcou em São Paulo levando às passarelas a coleção “Alforje”, inspirada na geologia e na monta da Estrada Real com uma estética boho, bordados artesanais, peças sensuais e muito ricas em pedrarias.
Ao longo de 53 looks desfilados, foi possível ver tecidos leves com modelagens que iam desde os volumes arredondados – parecido com o balonê – até às formas mais fluidas.

Por sua vez, a Handred apostou no fruto de uma imersão do estilista André Namitala no Japão entre o fim de 2025 e início de 2026, desfilando uma coleção com referências à cultura oriental embalada ao som vibrante e ao vivo de percussão Taiko.
A marca uniu sua tradicional sofisticação de balneário, com seda, organza, linho e algodão, a silhuetas amplas com cinturas marcadas, técnicas manuais ricas em bordados e texturas que exploram novos volumes e formas arquitetônicas.

Uó Upcycling abriu a passarela no sábado (17), penúltimo dia de desfiles da temporada. No desfile, realizado na Galeria Verniz, a marca, que tem o upcycling como premissa, unificou universos, provando que eles não estão tão distantes assim: lingerie, alfaiataria e o mundo das peças de corrida.
Cintas-ligas e camisolas estiveram lado a lado aos veículos e à NASCAR, que preencheram a loja de móveis antigos. Rendas, tecidos fluídos, fitas no pescoço e até tênis tratorados se destacaram na apresentação.

Na sequência, a Aluf, de Ana Luisa Fernandes, apresentou “Sonho de Pescador”. Para o trabalho, a designer traduziu superfícies aquáticas, barcos e peixes em babados, volumes esculturais e bordados tridimensionais, mantendo o compromisso da marca com a responsabilidade socioambiental.

Desta vez, a Normando voltou às origens ao apresentar uma coleção com referências à obra do pintor modernista paraense Ismael Nery (1900-1934), que, na década de 1920, se tornou um dos principais expoentes do moderno no Brasil.
Camisaria e alfaiataria ganharam destaque na passarela, além do uso de materiais como algodão, lãs e acetinados. Ainda que cobertos em quase todos os looks, o corpo se fez presente no desfile, oferecendo a estética sexy longe das tradicionais roupas justas, transparentes, decotadas ou com micro comprimentos.

Em sua oitava edição, o projeto Cria Costura, trouxe um desfile inspirado no trabalho do paisagista Roberto Burle Marx. A coleção foi feita por participantes selecionados para a temporada de moda e que participaram do treinamento promovido pelo In-Mod, que desenvolve técnicas de criação e modelagem.

Finalizando o dia, a Dendezeiro apresentou “Oração de barbearia”, coleção inspirada nas mulheres do hip-hop brasileiro foi recebida pelo público aos gritos e muitos aplausos.
Essa, no entanto, não é a primeira vez que a dupla criativa leva música às passarelas. Nas últimas temporadas, Hisan e Pedro usaram os bailes black, funk e cultura ballroom como foi condutor de suas respectivas apresentações.

No domingo (18), a Foz, de Antônio Castro, manteve sua profunda pesquisa sobre as raízes do Brasil e apresentou “Expresso Maravilha”. As peças foram construídas a partir de memórias da casa do designer como cortinas, namoradeiras, galinheiros, almofadas, capas de sofá e colchas.

A Ammi, marca que estreou nesta temporada de moda, colocou o trabalho artesanal e o crochê refinado em patamar de alta costura durante o desfile da coleção “Forma Viva”, inspirada nos mais diversos elementos orgânicos da natureza.

Concluindo a edição, o Apartamento 03, de Luiz Claudio, apresentou a coleção “Atempo”, desfilada por modelos trans, pretas e maduras, que marcaram as passarelas do evento.
Focadas no rigor impecável do acabamento, peças como calças amplas, vestidos transparentes e mantôs bordados ganharam destaque em uma cartela de cores que iam do branco ao brilho, passando pelo preto, azul-ciano, vermelho e verde.
