DIOGO BACHEGA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Segundo Irvine Welsh, parte do que preserva a atualidade de seu romance de estreia, “Trainspotting”, é que a juventude de hoje ainda enfrenta os mesmos problemas de três décadas atrás: o desemprego e o vício.
O autor britânico conversa com a reportagem sobre esse apelo perseverante ao publicar no Brasil “Homens Apaixonados”, em que retoma os personagens do primeiro livro, de 1993, que virou um filme cult de Danny Boyle três anos depois.
Welsh estreou como romancista com o retrato de uma juventude que dizia não à vida. Em paráfrase do livro original: à vida dos pagamentos de hipoteca, das máquinas de lavar, dos carros, da comida porcaria, em que se morre em meio à própria urina e fezes.
Escrito como um mosaico de cenas desconectadas, “Trainspotting” acompanhava os amigos Spud, Sick Boy, Begbie e Renton em meados dos anos 1980.
Entediados e sem perspectiva, pertencentes a uma geração da classe trabalhadora para a qual as conquistas de seus pais, como manter um emprego e conseguir uma casa própria, pareciam desinteressantes e inalcançáveis, os quatro adotavam a heroína como estilo de vida -problema que dispensava pensar em todos os outros.
Para Welsh, parte do que explica a vida longa do universo de “Trainspotting” é que a falta de trabalho e o mergulho nas drogas permanecem vivos. “Esses caras [do livro] estavam experimentando o desemprego pela primeira vez”, diz. “Agora somos todos membros do precariado.”
O cenário não se restringe à Escócia ou ao Reino Unido. No Brasil, como apontou uma reportagem recente da Folha, o desemprego apresenta a menor taxa desde o começo da série histórica, em 2012, mas cerca de 40% da mão de obra ainda trabalha na informalidade, sem carteira assinada ou CNPJ.
Já o vício se universalizou. “É como se tudo fosse viciante agora. O celular é um canal de acesso para todos os vícios que podemos querer: apostas, sexo, drogas, comida. Tudo de um jeito compulsivo, obsessivo -até o que faz bem, como o exercício físico. Os algoritmos estão nos destruindo, e a internet, destruindo nossa cultura.”
A situação só é agravada pela forma como muitas pessoas têm usado a inteligência artificial, na opinião de Welsh. “Se você terceirizar seu pensamento para uma máquina, vai acabar se tornando um idiota, basicamente.”
Outro fator que ele aponta é como a cultura se tornou descartável a partir do surgimento da internet, com antigos fenômenos calcificados como referências e novas obras sendo produzidas e deixadas de lado a rodo. Tem sido ótimo para ele, mas não muito saudável para a cultura, afirma.
Fato é que sua obra caiu no gosto do povo. O livro e sua adaptação se tornaram fenômenos. No cinema, houve uma continuação, “T2 Trainspotting”, de 2017. Recentemente, o livro se tornou um musical, que encerra uma primeira temporada de sucesso no West End, no Reino Unido, e deve partir para a Alemanha.
Tampouco Welsh largou o osso: escreveu cinco derivados de seu romance de estreia. O mais recente, “Homens Apaixonados”, chega ao Brasil pela editora Rocco e recupera a turma original logo após os eventos que encerram o primeiro. Cada um a seu jeito, todos vão encarar o amor enquanto deixam para trás o primeiro momento da vida adulta.
Welsh diz que já vinha acumulando ideias novas para seus personagens, mas não queria publicar nada sem ter um tema sobre o qual trabalhar. “Pensando sobre como as coisas estão, não parece haver muito amor no mundo hoje”, afirma.
Por conveniência, seu primeiro livro se despede dos protagonistas quando eles estão chegando aos meados de seus 20 anos, momento em que, para o autor, se começa a pensar a sério no amor.
“É quando as pessoas começam a tomar consciência da própria mortalidade”, afirma. “Se antes, cansadas da própria família, elas se entregavam aos amigos, começam então a se cansar deles também. Querem outra coisa para ser o centro de suas atenções -normalmente, um relacionamento.”
“Homens Apaixonados” se passa na virada dos anos 1980 para os anos 1990. Após dar um golpe em seus amigos no fim de “Trainspotting”, Renton foge para a Holanda e passa a viver em Amsterdã, onde cresce a cena de música eletrônica. Na vida noturna, conhece a libertina Monique, com quem firma uma relação, e começa a trabalhar organizando festas.
Sick Boy se apaixona por Amanda, filha rebelde de uma família endinheirada, e passa a enxergar nela a possibilidade de ascensão social. Desajeitado e bondoso, Spud vive de bicos ao lado de Alison, sua companheira, e busca um caminho para deixar a pobreza e superar seus problemas com drogas. Tão violento como sempre, Begbie divide sua atenção entre a paternidade e a busca por Renton, de quem quer se vingar.
“[Os personagens] são tão egocêntricos e narcisistas. Estão todos ferrados, não são ótimos candidatos para o romance. Mas as pessoas entram em relações sérias quando menos estão preparadas. Você passou a última década decidindo a que bar ir e, de repente, precisa tomar todas essas decisões. ‘Eu quero estar com essa pessoa? Vamos casar? Vamos ter crianças, e quantas?'”
Arte, amor e juventude são as apostas de Irvine Welsh para um mundo melhor. Para ele, os dois motores da humanidade são a vontade de se expressar e se conectar com outras pessoas -são capazes de, na sua leitura, trazer de volta a sensação típica dos jovens de que as coisas podem mudar para melhor, mesmo contra todas as evidências.
“Eu me lembro de ter uns 20 anos e estar sentado em um colchão, com uma agulha enfiada no meu braço, encarando a parede e tudo mais. E eu preferiria de longe ser aquela pessoa do que quem sou hoje. Ser jovem era brilhante.”
A leitura que Welsh faz do estado do mundo é amarga, mas nem só de pessimismo vive o cronista da desilusão. O escritor enxerga um movimento crescente de pessoas voltando ao analógico, discotecando em bares, juntando-se para ouvir poesia e música e buscando depender menos do digital.
“Minha teoria é que as pessoas são passivas de várias formas. Você pode explorá-las, tirar suas identidades, mas elas realmente reagem ao tédio e à frustração -e a internet está ficando um tédio, está ruim”, diz o escritor. “A revolução sempre começa com a juventude entediada e frustrada com o jeito como as coisas estão, e eu acho que é o que está acontecendo.”
Questionado se não há um pouco de ilusão nesse otimismo esperançoso, responde que somos todos iludidos. “Os maiores iludidos do mundo são os bilionários, que acham que vão viver para sempre. Eles não vão. Vão ter vidas de merda, envelhecer e morrer.”
HOMENS APAIXONADOS
– Preço R$ 114,90 (416 págs.)
– Autoria Irvine Welsh
– Editora Rocco
– Tradução Tiago Lyra