Aos 72 anos, Neide Cardoso continua trabalhando e, atualmente, ajuda a formar outros profissionais. Depois de décadas dedicadas ao ensino de matemática, ela começou uma nova etapa da carreira quando já havia passado dos 50 anos. Duas décadas depois, permanece na ativa.
A história de Neide ajuda a levantar uma questão que ganha importância diante do envelhecimento da população brasileira: em um país onde as pessoas estão vivendo mais, quem consegue — e quem tem a oportunidade — de continuar trabalhando depois dos 60?
Hoje, ela é supervisora pedagógica do Supera, empresa de educação voltada à estimulação cognitiva. Neide entrou na organização em 2006 e passou a levar a experiência acumulada em sala de aula para uma nova área. Com o tempo, assumiu também a formação e o acompanhamento de outros educadores.
“Meu pensamento sempre foi contribuir com as pessoas e para que o mundo seja um pouquinho melhor. Enquanto eu estiver conseguindo fazer isso, vou fazer”, afirma.
A mudança aconteceu em uma fase da vida em que muitas pessoas já começam a pensar na saída do mercado de trabalho. Para Neide, no entanto, os anos seguintes trouxeram novas responsabilidades e também a necessidade de continuar aprendendo.
A permanência na atividade profissional não significa, porém, que o envelhecimento deixe de impor mudanças.
“Já sinto as perdas naturais da idade, mas sigo driblando e me mantendo ativa enquanto eu tiver forças”, diz.
A experiência também mostra que envelhecer trabalhando não é uma realidade única. Há quem queira permanecer profissionalmente ativo, quem precise da renda do trabalho e quem tenha condições de continuar — e essas situações nem sempre coincidem.
Uma possibilidade que não chega a todos
Para o geriatra Leandro Minozzo, histórias de pessoas que permanecem profissionalmente ativas precisam ser analisadas levando em conta as diferenças existentes entre as trajetórias de envelhecimento.
“Nem todo mundo tem capacidade de chegar aos 70 anos bem e apto ao trabalho. Nem todo mundo envelheceu da mesma maneira. Então o principal recado disso é ter um pouco de empatia para entender essas desigualdades no envelhecimento”, afirma.
As condições financeiras, o acesso à saúde e à educação, o ambiente em que a pessoa vive e a existência de uma rede de apoio interferem na forma como cada indivíduo chega à velhice.
O Ministério da Saúde reconhece o envelhecimento como um processo heterogêneo, influenciado por fatores orgânicos, funcionais, psicossociais e ambientais. Por isso, a avaliação das condições de saúde na velhice também considera aspectos como autonomia e o contexto social.
No caso de Neide, uma oportunidade profissional surgiu depois dos 50 e se transformou em duas décadas de trabalho. A trajetória mostra uma possibilidade de envelhecimento profissional, mas não pode ser tomada como retrato da população idosa como um todo.
Um em cada quatro idosos trabalha
Os dados do mercado de trabalho ajudam a dimensionar esse cenário.
Segundo a última Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, 24,4% das pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas em 2024 — aproximadamente uma em cada quatro.
A diferença entre homens e mulheres era significativa. Enquanto 34,2% dos homens idosos estavam trabalhando, entre as mulheres da mesma faixa etária a proporção era de 16,7%.
A participação cai ainda mais entre os mais velhos. Entre as pessoas com 70 anos ou mais, 10% estavam ocupadas. No recorte feminino dessa faixa etária, eram 5,8%.
A forma de inserção no mercado também muda com a idade. Entre os trabalhadores com 60 anos ou mais, 43,3% atuavam por conta própria. Entre os ocupados com 14 anos ou mais, essa proporção era de 25,2%, segundo o IBGE.
Os números mostram que a participação no mercado de trabalho entre os idosos assume características diferentes das observadas entre os trabalhadores mais jovens. Mas os dados, isoladamente, não permitem determinar se a permanência no trabalho ocorre por escolha, necessidade financeira ou pela combinação desses fatores.
A história de Neide acrescenta outro elemento: além de permanecer trabalhando, ela passou a ocupar uma posição em que sua experiência é usada para orientar e acompanhar outros profissionais.
Aprender depois de décadas de carreira
A experiência no ensino de matemática encontrou uma nova aplicação no trabalho com atividades voltadas ao estímulo de habilidades como memória, atenção e raciocínio.
Ao longo dos anos, Neide passou a atuar também na formação de profissionais e no acompanhamento da qualidade do trabalho. A trajetória combina conhecimento acumulado ao longo de décadas com a aprendizagem necessária para atuar em uma nova área.
A discussão ganha peso diante da transformação demográfica brasileira.
Em publicação de 23 de setembro de 2026, o Ministério da Saúde informou que o Brasil tem 36,6 milhões de pessoas com 60 anos ou mais neste ano. Segundo a pasta, esse contingente deverá chegar a 61,5 milhões nas próximas duas décadas.
O crescimento da população idosa traz novos desafios para o mercado de trabalho, entre eles o acesso à formação, a possibilidade de mudança de função e a criação de oportunidades para profissionais que desejam ou precisam permanecer economicamente ativos.
Para Minozzo, a preparação para envelhecer com autonomia precisa começar antes da velhice.
“A gente precisa se esforçar para envelhecer bem. Não é para depois, é para começar a se esforçar já agora”, afirma.
Essa preparação envolve cuidados individuais, mas também depende de condições que permitam estudar, cuidar da saúde e ter acesso a oportunidades ao longo da vida.
No caso de Neide, uma oportunidade profissional depois dos 50 se transformou em 20 anos de trabalho. Aos 72, ela continua responsável pela formação de outros educadores.
A trajetória mostra uma das possibilidades de envelhecer no mercado de trabalho: transformar experiência acumulada em conhecimento compartilhado e continuar aprendendo mesmo depois de décadas de carreira.