Dívida pública dos EUA pressiona Treasury, avalia economista

O rendimento do Treasury de referência de 10 anos superou a marca de 5% nesta segunda-feira (14), atingindo o nível mais alto desde outubro de 2023. O patamar é considerado um limiar psicológico relevante e, segundo analistas, pode trazer repercussões significativas para a economia dos Estados Unidos e para os mercados globais.

Em entrevista ao CNN Money, Guilherme Almeidan, head de renda fixa da Suno Research, avaliou que o movimento pode ser compreendido a partir de dois eixos: fatores conjunturais e estruturais. Entre os fatores de curto prazo, ele destacou o contexto geopolítico, que tem pressionado o preço do petróleo para acima de US$ 100 por barril.

Segundo Almeida, essa dinâmica aumenta as preocupações sobre os impactos na cadeia produtiva global e nos níveis de inflação.

Além disso, a proximidade da decisão do Fomc (Comitê de Política Monetária dos Estados Unidos) contribui para a incerteza nos mercados. O economista também apontou uma inconsistência na comunicação do banco central americano, destacando que Kevin Walsh tem adotado um discurso mais duro, enquanto suas decisões e votos acabam sendo mais brandos. Na avaliação de Almeida, essa divergência aumenta a percepção de risco e, consequentemente, pressiona as taxas de juros.

No campo estrutural, Almeida apontou o cenário fiscal dos Estados Unidos como um dos principais vetores de pressão. Segundo ele, o déficit fiscal americano tem se aproximado de US$ 2 trilhões nos últimos exercícios, enquanto a dívida pública já ultrapassa US$ 40 trilhões e os gastos acumulados com juros no ano chegam a US$ 1 trilhão.

Para o economista, a preocupação com a sustentabilidade da dívida faz com que o mercado passe a exigir uma remuneração maior pelos títulos.

Outro fator estrutural citado por Almeida é o questionamento crescente sobre o papel dos títulos públicos americanos como ativos considerados livres de risco. Segundo ele, desde 2020 esses papéis perderam algumas características típicas de um ativo seguro, o que tem alterado sua precificação e contribuído para a elevação dos juros.

Para países emergentes, como o Brasil, esse cenário exige um prêmio adicional em relação aos títulos americanos. No caso brasileiro, Almeida destacou que o período eleitoral acrescenta uma camada de incerteza, o que pode afastar o capital estrangeiro e manter o mercado em compasso de espera.

No setor imobiliário dos Estados Unidos, o economista explicou que a taxa longa dos Treasuries serve como referência para o custo do financiamento habitacional. Com juros mais elevados, o crédito fica mais caro, reduzindo a demanda das famílias e podendo afetar renda, endividamento e inadimplência.

Segundo Almeida, esse é justamente um dos mecanismos pelos quais os bancos centrais buscam desacelerar o consumo e reduzir as pressões sobre os preços.

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