A natureza é selvagem e geralmente a lei é clara: cada um por si. No entanto, é comum ver animais adultos protegendo os filhotes até eles conseguirem ter alguma autonomia. Mas esse pode não ser o caso quando falamos sobre os ursos.
Curiosamente, um dos hábitos cometidos por ursos machos ao encontrar uma fêmea com filhotes é de afastá-los do cenário. E isso não acontece por meio de brigas, sustos ou privação de comida, mas diretamente por ataques mortais.
Como isso acontece?
Os ataques aos filhotes acontecem principalmente para forçar a ursa fêmea a entrar novamente no período do cio novamente, permitindo que o macho consiga acasalar com ela. Esse comportamento é conhecido como infanticídio sexualmente selecionado, uma estratégia evolutiva que força a transmissão de sua própria linhagem genética.
Durante o período de amamentação, por exemplo, a fêmea não entra no cio, em um fenômeno conhecido como amenorréia lactacional. Com a morte dos filhotes, a lactação é interrompida em poucos dias e, após algumas semanas, a ursa volta a ser receptiva sexualmente, sendo reconduzida ao cio.
Uma das principais motivações é a curta duração da janela de acasalamento desses animais e portanto macho prefere não esperar anos até que os filhotes tenha crescido. Com a prática, o urso também garante que a fêmea cuide dos seus filhotes dele, e não os reprodutor anterior. Curiosamente, o urso macho não permanece junto com a fêmea durante a gestação e criação dos novos filhotes, indo embora logo após o acasalamento.
Os principais vilões
Amplamente documentado, o infanticídio sexualmente selecionado é mais centralizado em três espécies principais de ursos. Com altas taxas de ataques brutais, esses ursos contam com sistemas de acasalamento poligâmicos e estações de reprodução curtas.
- Urso-pardo: é a espécie onde o comportamento é mais intensamente estudado e comum, com as duas subespécies Grizzlies e Ursos de Kodiak mais presentes na Escandinávia e na América do Norte. Estudos indicam que a morte de um urso-pardo macho dominante (seja por outro urso ou por caçadores humanos) estimula que novos machos invadam o território e matem os filhotes existentes
- Urso-negro-americano: o infanticídio por novos machos é uma causa significativa de mortalidade de filhotes nesta espécie, mas alguns fatores impactam no índice, como densidade populacional dos ursos e escassez de alimentos
- Urso-polar: ocorre com grande frequência, mas sua principal causa ainda é motivo de debate entre cientistas. Com o derretimento do gelo ártico e escassez de focas, os machos atacam os filhotes também por necessidade nutricional, cometendo canibalismo para garantir sua sobrevivência
O contra-ataque das fêmeas
Altamente protetoras, as ursas fêmeas conhecem o hábito do infanticídio e adotam algumas práticas para evitar ou minimizar o risco. Além dos embates físicos, também incluem algumas estratégias territoriais e sociais para garantir a saúde dos seus filhotes.
Mesmo sendo bem menores em tamanho em relação aos machos, as ursas protegem os filhotes ferozmente por meio de ataques físicos e, diante do perigo iminente, adotam uma saída emergencial ao ordenarem que seus filhotes subam em árvores altas, dificultando o acesso de machos mais pesados.
O isolamento territorial costuma ser adotado pelas fêmeas, evitando áreas centrais que tenham maior possibilidade de aparecimento de ursos, preferindo se estabelecer em encostas, íngremes, florestas densas ou locais próximos a humanos, como estradas e vilarejos, para afastar a presença dos machos.
E uma das formas de prevenção é uma estratégia sexual plural, onde as fêmeas acasalam com múltiplos machos na mesma temporada de cio. Essa tática confunde a paternidade específica, evitando que os machos ataquem com receio que os filhotes possam ser deles
Nem todo urso
Em algumas espécies de ursos, esse comportamento é extremamente raro ou inexistente. A dieta do panda, por exemplo, é composta quase que exclusivamente por consumo de bambu. O comportamento solitário e menos agressivo dos exemplos abaixo reduzem a iminência de ataques desta natureza.
- Panda-gigante: gastam o mínimo de energia possível, mesmo comendo bambu por até 14 horas por dia. Com baixa libido, possuem um cio que dura no máximo três dias por ano e praticamente não há disputa violenta de território
- Urso-de-óculos: nico urso nativo da América do Sul. passa a maior parte do tempo no topo de árvores prefere o isolamento pacífico em florestas densas e isoladas. Único urso nativo da América do Sul, seus encontros com fêmeas que já possuem com filhotes são extremamente raros
- Urso-beiçudo ou Urso-preguiçoso: sua alimentação é quase exclusivamente de cupins e formigas. Naturais da Ásia, os filhotes viajam montados nas costas da mãe até completar 9 meses, o que funciona como uma proteção física contra outros predadores
- Urso-malaio: habitam as florestas tropicais do Sudeste Asiático e não contam com um ciclo sazonal específico, podendo se reproduzir o ano todo. Com isso, os machos não enfrentam a pressão de um prazo curto de acasalamento
- Urso-negro-asiático: embora seja parente próximo do urso-negro-americano, evita conflitos e por isso prefere permanecer no topo de árvores. Os registros de infanticídio são considerados anomalias raras, geralmente ligadas à escassez extrema de comida